Foi em um domingo cedo quando deixei o asfalto da BR116 e adentrei a estrada de chão do Povoado de Oitis, na região do município de Milagres no Ceará. Um dia bonito emoldurava a caatinga verde, refrescada pelas bem vindas chuvas dos últimos tempos. Já estive falando disso por aqui, mas reforço que meus conceitos de hospitalidade foram remexidos no encontro com o povo nordestino. Pois em Oitis não foi diferente. Fui recebido pela Daniela Gonçalves, uma articuladora comunitária que deu voltas na paisagem bucólica do povoado e me levou até Dona Izaldite, uma parteira de 89 anos e aniversariante do feliz 15 de maio, mesmo dia do aniversário desse motorista de kombi que vos fala.
Dona Izaldite, lúcida e alegre, me recebe com certa modéstia:

– Ninguém quer saber disso não. Eu vivo aqui sozinha no meu canto. Já to velha. Não lembro de nada não.

Eu a provoco. Pego suas primeiras palavras e breves memórias para esticar o fio da conversa. Quando me dou conta a câmera já está ligada e Dona Izaldite sai no galope das histórias sobre partos, curas e quase milagres que já vivenciou.

– Eu acho que isso é um dom dado por Deus. Nunca ninguém me ensinou a fazer um parto. Eu fiz muito. Em Serra, em Baixio. Parei de contar tinha cento e poucos. Eu não sei explicar direito. A mulher tem que ter uma confiança.

Dona Izaldite conta que o primeiro bebê que “pegou” foi quando acompanhava a cunhada que estava em trabalho de parto e aguardava uma parteira da comunidade vizinha, que já demorava muito. O tempo não espera, a gente sabe e Dona Izaldite também. Ela mesma resolveu dar conta. Diz que daí em diante era chamada em todos os cantos.

– Já cortei o cordão com faca porque não tinha tesoura. Tinha dias que era uma correria só. Eu saia da casa de uma e já me chamavam para outra. Meu marido não gostava, mas eu fazia com gosto. Podia tá chovendo, noite, mas eu ia. Hoje tem criança que eu peguei que já tem neto. Todo mundo me chama de mãe Izaldite. Tenho uma porção de filho espalhado por aí.

Dona Izaldite é um exemplo de como a cooperação foi a costura para a evolução humana nesse planeta. A cultura do cuidado foi e continua sendo o ponto de equilíbrio decisivo para conservação da vida de nossa espécie. Em tempos sem tecnologia ou assepsia adequada, uma mulher olhava pela outra e trazia, com as mãos, vida nova ao mundo. Um cuidador é aquele que exerce o cuidado com a presença, com os olhos, com a palavra, com o toque. Um cuidador, seja por via da ciência, da fé ou da intuição, é um poeta do destino humano. Um costureiro dos saberes históricos que acompanham o animal Homem tempo adentro.

Durante toda nossa conversa, Dona Izaldite me perguntava se eu não queria comer nada. Eu dizia que não, mas agora enquanto escrevo, fico pensando que entre as palavras e histórias, Dona Izaldite me alimentou o tempo inteiro.

Cuidar cura.

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