Esta foi a última entrevista da primeira etapa do projeto. Demorei a produzir este texto. Talvez, pelo que representa em minha vida a entrevistada da vez. Escrever é isso, são esses caminhos entrecruzados que se conflituam dentro daquele que se propõe a tal empreitada. Mas não fujo. Começo, escrevo, apago e reescrevo. Tentativa e tentativas . . . Atentando para o que briga dentro de mim anda gritando.  É o óbvio que me destrava, quando assumo as dificuldades da empreitada de transmitir a outras pessoas o que acontece a partir de algo que estou observando.

Segue mais uma investida:

Se existe um pensamento que se concretizou e esteve presente em de todo o percurso realizado durante o projeto Andarengo, é o de que a Cultura do Cuidado é o grande contraponto e a mais refinada linha de fuga da Cultura do Medo. Ao me referir a estas culturas, faço o uso das letras maiúsculas, porque no meu ponto de vista, elas incorporam conceitos e esses conceitos determinam modos de vida.

A Cultura do Medo é a subjetividade social tomada por um modo de viver centrado na proteção de ameaças concretas ou imaginárias. Quando as estruturas mentais de um povo, grupo ou comunidade são contaminadas pelo medo do contato, da violência, da perda, do fracasso, da falência, do outro, do diferente, etc. A Cultura do Medo, além das fobias, do pânico e do terror, fabrica o desejo de obedecer, isto é, a ânsia pela uniformidade, controle e obsessão por uma determinada ordem. Se obedece não a um ditador, mas a um modo de ser. Cultua-se fronteiras, divisas, distâncias. O contrário disso transforma-se em uma ameaça que precisa ser expurgada. E como resultado, corpos cada vez mais confinados, ressentidos e enfraquecidos; a capacidade cada vez mais rasa de olhar o mundo ao redor. A Cultura do Medo é o culto do enfraquecimento e da distração.

Em contraponto a isso, algo como uma deserção desse corpo social aquartelado, manifesta-se a Cultura do Cuidado. Ou seja, a produção de uma vida mais aberta, generosa e criativa. A Cultura do Cuidado é um modo de conservação e coexistência. Uma forma de se relacionar com o mundo baseado na escuta, na presença e no encontro com o outro. É a capacidade de estar-aceitar o diferente. O cultivo de uma vida mais forte. Vetor de produção de espaços e encontros. Esta breve e rasa reflexão serve como uma espécie de âncora para falar do meu encontro com Loeci Maria Pagano Galli, com quem tive a alegria de conversar em uma manhã úmida e fria na minha querida Porto Alegre.

Loeci é psicóloga e doutora em comunicação. Lecionou por mais de 30 anos na PUCRS e atua na clínica psicoterápica há mais de 40 anos. No entanto, títulos apenas não formam um cuidador. Aquele que cuida não é um ser que segue passos pré-estabelecidos, mas alguém aberto ao outro. Um cuidador não é um pacifista, e sim, aquele que faz pouso suave nas ondas de uma relação. Um ser dotado de ferramentas subjetivas, capazes de afirmar a vida como força criativa e promotora do diferente. E Loeci, como uma sensível cuidadora, escancara essas sutis características em nossa conversa. Aliás, esse é um patrimônio imaterial carregado por essa mulher.

“Cuidar, para mim, é poder estar com o outro, verdadeiramente, e ao mesmo tempo comigo mesma. É ouvir o outro – sem a priori – na sua história de vida. Normalmente, as pessoas chegam aqui, porque nunca acreditaram nessa história. Ou melhor, desacreditaram. Nos ensinaram a nos olharmos através do olhar do outro desde  pequenos. Com todos os valores culturais, com tudo que trazemos de bagagem. As pessoas se moldam e sua personalidade vai sendo construída a partir daí. O cuidado é poder devolver a pessoa sua singularidade e potencialidade, entendendo também que isso faz parte dela. Para assim, ela poder escolher como conduzir sua vida. Não existe um lugar para chegar. Existe o seu lugar. Cuidado é receber o outro na sua mais genuína forma de estar sendo. E quando a pessoa aprende a olhar para si e para seus valores, consequentemente, ela aprende a fazer suas escolhas com responsabilidade, mostrando-se na forma como pode estar naquele momento”.

Eu ali, sentado naquela grande poltrona, ouvia cada palavra da Loeci. Mais uma vez, todas as peças se encaixando. A Cultura do Cuidado: receber o outro, estando consigo. O outro, um diferente, um monstro desdomado ou um amigo querido. Às vezes, os dois em um só. Cuidar é receber e receber é estar perceptivo-zeloso-atento.

“Eu escuto alguém e essa relação é muito sensível. Por exemplo, um passarinho bateu na janela e eu desviei o olhar. Parece pouca coisa, mas pode ser algo suficiente para a pessoa se fechar na história que estava me contando. O que eu quero dizer é que esse sofrimento psíquico nós não conseguimos avaliar na vida da pessoa. É algo que é único e irrepetível”.

Loeci tem uma voz mansa e seu olhar imprime generosidade no ar. Estar com ela é estar amparado de uma sensação de presença. Alguém que realmente está ali. A conheço desde 2010 e sempre que nos encontramos uma alegria nos acompanha. Algum mundo se encerra quando começamos a conversar e outro certamente se abre. Em todo o Brasil, em seus sertões e florestas, encontrei cuidadores, gente com diferentes histórias. Trabalhadores do cuidado, em prosa ou poesia. São as centelhas de um fogo que insiste em permanecer aceso. Em tempos áridos e raros acessos de respiro, encontrar com essa gente é um alento que me nutre. Esse país, descrito com ódio nos cotovelos, é terra viva de jeitos diversos, sotaques em matizes e raízes profundas. Tem histórias esse povo. Conhecê-lo é tarefa hercúlea. Eu comecei, mas possivelmente, irei embora desse mundo sem ter concluído tal missão. Mas uma coisa já ficou: o Brasil é país de cuidadores. Eu não vi isso nos televisores, não li em livros e não me falaram disso na universidade: eu vivi isso.

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