– Aqui faz seis anos que não chove, moço!

Ela me disse isso enquanto tentava achar um ramo para me mostrar como faz para benzer cobreiro. Dona Damiana é uma rezadeira de Boa Vista, cidade distante 200km de João Pessoa.

A rezadeira me recebeu em um dia de sol quente e poeira se erguendo no sertão da Paraíba. Saí do asfalto, onde andei por um bom tempo sem cruzar um único carro. A kombi me levou por 20km em uma difícil estrada de chão. Parei ali,  bem em frente a janela onde Damiana mirava o horizonte sertanejo (em que será que ela pensava?).

– Fiquei sabendo que aqui tem uma rezadeira forte – eu falei ainda sem sair da Kombi. Ela sorriu envergonhada e ali já senti que seria bem recebido. Expliquei a ela os motivos da minha presença por aquelas bandas e logo fui convidado a entrar.

Liguei a câmera, ajeitei o gravador e peguei o caderno enquanto já iniciava uma conversa sobre os caminhos da cura. Enquanto isso, quem me olha atenta, do outro lado sala é a Dona Evarista, mãe de Damiana.

Dona Evarista e Dona Damiana                             Foto: Rodrigo Carancho

– Pergunta tudo que tu quiser pra ela, meu filho. Eu já tô muito velha. Faz anos que eu passei tudo pra ela. Mas isso é uma tradição de familia e a gente tem muito respeito.

Paciente ao me mostrar a forma como reza, Dona Damiana me explica que tem um jeito para cada problema:

– Olhado, cobreiro, quebranto, vento virado. Tudo tem seu jeito e tem seu tempo. Às vezes é mais fraco e as vezes é mais forte. Quanto é muito pesado eu boto pra fora vomitando.

A rezadeira é de poucas palavras, mas não esconde nada do seu “método”. Me falou da importância do ramo e da ordem certa das orações. Me contou histórias de cura a distância e alguns pequenos milagres que sua avó operava por meio da oração.

Em meio a seca e aquele cenário de poeira e resistência, sobrevive certa tradição que não conseguimos medir. Algo baseado na fé e nas histórias que atravessam gerações. A reza é estratégia de sobrevivência para este povo. Uma força brota daí. A cada encontro desses, acumulo mais força para seguir o caminho.

Ao final, Dona Damiana, empolgada com a conversa me diz:

– É a coisa que mais gosto na vida. Ajudar o outro. Alguém vem aqui se sentindo mal e sai melhor. Eu fico bem com isso.

Cuidar cura

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