Sentada na varanda de sua casa, lugar onde corre uma brisa leve, Dona Gilza me recebeu para uma conversa sobre cuidado, cura e plantas medicinais. Logo atrás do lugar onde ela escolheu para sentar, um grande mandacaru nos observa, emprestando sua imponência como cenário para aquela porção de histórias de sabedorias tradicionais e populares.

Dona Gilza não esconde o orgulho de ter recebido de sua mãe os conhecimentos sobre as plantas e suas propriedades de cura e alívio.

– Minha mãe já era muito apreciada na comunidade pelos remédios. Deus que cura, eu acredito nisso, mas cura pelas nossas mãos e isso tudo eu aprendi com minha mãe – ela fala com apreço da história de sua mãe, mas sempre fazendo certa referência a sua relação com o divino.

Antes de Dona Gilza, quando eu pensava em plantas medicinais, a primeira coisa que vinha a cabeça era um chá. No entanto, por meio de seus contos e pela incursão na pequena floresta que conserva em sua casa, percebi que dali são retirados xaropes, pomadas, pílulas, unguentos, pós e, claro, chás. Tudo isso é extraído de diferentes partes da planta: Raíz, caule, folha, flor, semente, fruto e seiva.

– Eu faço o remédio, mas é Deus que cura. Daqui a gente tira alívio para gastrite, bronquite, tosse, dor de ouvido, canseira, hemorróidas, doença venérea, problema de fígado, de pele.

Na conversa com Dona Gilza, adentrei em um rico e bonito universo de conhecimento. Malva, mandacaru, babosa, folha santa, romã, hortelã, gengibre, jurema. Eram tantas as plantas e tantas as indicações que eu me perdia em meia aquelas riquezas de simplicidade. Porém, a simplicidade que está estampada nessa prática tradicional, incorpora um ritual na preparação dos remédios, onde percebemos novamente o cuidado como protagonista.

– Precisa cuidar a hora de colher. Não é só você chegar em uma árvore e cortar ela com aquele rancor de tirar aquela casca do caule. Você tem primeiro que pedir uma licença. Ninguém pode entrar nela tirando. Tem que tirar com amor, tranquilo. Você precisa ir bem tranquilo para colher a planta.

Depois de um tempo de conversa e caminhada pelos arredores eu decido ir embora. Estava já a caminho de Juazeiro do Norte. Antes disso, um gordo almoço na casa de Dona Gilza e umas receitinhas para mim mesmo. Eu saí de lá cuidado e com um bocado de coisas novas na minha gaveta de saberes, coisas que vou demorar um tempo para medir em palavras. Eu tento caçar um jeito de escrever sobre o que eu tenho aprendido com essas andanças, mas confesso que me sinto muito pequeno quando tento fazer isso. Talvez o tempo irá revelar as palavras certas a serem usadas. E o remédio para o tempo é só o tempo mesmo.

Cuidar cura.

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