“A história do norte de minas não é só a história do norte de Minas, é a história do Brasil”. O poeta Carlos Azevedo me disse isso enquanto almoçávamos em Montes Claros. A sua colocação me deixa pensando que o Brasil é grande demais para caber em uma só história. Esse país, repleto de belezas e contradições ainda tem muito para ser descoberto e cabe a nós, brasileiros, abrirmos essa picada. O meu encontro com esses cuidadores – os vejo assim – reflete um pouco desse manancial cultural que é esse pedacinho do Brasil: O norte de Minas.

Chego em Montes Claros em uma manhã ensolarada, depois de passar a noite em Bocaiúva. O homem que me espera ganhou o Grammy Latino com o disco de música de raiz “Salve Gonzagão – 100 anos”, que homenageia Luiz Gonzaga. É membro da academia brasileira de literatura de cordel, tendo já escrito algo em torno de 1000 histórias em cordel. É o compositor vivo que possui mais músicas gravadas no Brasil, por volta de 2.500 canções. E também autor de 10 livros sobre a cultura popular brasileira. Sabendo disso, talvez quem me lê pensa que fui recebido por alguém com certa pompa. Errado! As 09:00 em ponto, Téo Azevedo já estava pronto me esperando em sua casa. Me deus alguns cd’s e livros de presente, pegou duas violas e subiu na minha kombi. Seguimos um caminho por dentro de Montes Claros. Paramos na casa do cordelista Carlos Azevedo, que veio conosco. Nosso destino era a oficina do Toni Preto, rabequeiro de mão cheia, que domina a arte de construir e de tocar uma rabeca. Lá também nos aguardavam a dupla Ariedson e Renan, que fazem um lindo sertanejo de raiz.

Confesso que fui surpreendido com toda a mobilização para atender ao meu pedido de conhecer com um pouco mais de detalhes o folclore e culturas locais. “Nós somos parceiros, isso que você faz também é cultura de resistência” me falou o Téo se referindo ao projeto que toco na estrada. Aliás, Téo fala bastante sobre cultura de resistência e justifica “Quem não conhece seu passado não conhece seu futuro”.

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Ariédson com Tonho Preto

Mas seguimos

Enquanto Ariedson e Renan afinavam os instrumentos, o Toni Preto cuidava da rabeca. Tudo isso dentro de uma sala com um velho balcão e uma balança antiga. Um lugar muito simples e que deixava ecoar a voz grave do Téo Azevedo que ia dando o tom da lida. Estava com braço machucado, mas ficava ali por volta como se fosse o produtor do encontro. De fato era.

Som passado, calor batendo nas costas e esse povo enfileirou algumas músicas para o meu deleite. Entre uma marca e outra converso com o Toni Preto que já me diz : “O povo me pergunta onde é minha oficina. Minha oficina é qualquer lugar, debaixo de uma árvore, no meio do mato. Só preciso da madeira, das mãos e de um estilete. De vez em quando eu uso um caco de vidro”. Toni tem sensibilidade estampada nos olhos e as mãos sempre alisando a rabeca.

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Ariédson e Renan

Com uma linda harmoniza vocal, Ariedson e Renan me falavam que lançaram a pouco o seu primeiro trabalho. Um lindo cd intitulado “Os reis do guaiano” com produção do Téo Azevedo. Fiquei muito curioso sobre a sua formação musical e os rapazes se remeteram muito a Alto Belo, terrinha amada,  e suas influências locais.

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Carlos Azevedo

Outra presença de marca maior nesse momento foi a do cordelista Carlos Azevedo. O poeta conta a história do norte de Minas e seus marcantes acontecimentos, tudo no ritmo compassado da literatura de cordel. Carlos declamou alguns versos e explicou com cuidado o seu processo criativo afirmando “A memória se conserva mais quando a história é contada no cordel”. Carlos tem intenso intercâmbio com poetas do nordeste e já teve seus cordéis publicados em outros países.

Por fim, Téo Azevedo ocupa seu lugar no meio dessa talentosa turma. Fala sobre a importância do folclore no cuidado com a memória de um lugar e toma como exemplo a Folia de Reis de Alto Belo/MG, sua terra natal. Todos os meses de janeiro o distrito de Alto Belo reúne uma multidão na folia, festa que foi declarada patrimônio cultural do estado de Minas Gerais.  Pergunto a ele se no meio desses 2500 músicas tem alguma especial. Téo dá uma volta, mas não demora a cantar um trecho de “Amansador de burro brabo”

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Téo Azevedo

Já dei surra no diabo
Mas só fico convencido
Quando sou reconhecido
Amansador de burro brabo”

Téo é um ativista. Alguém que faz acontecer e junto com isso leva uma porção de gente, seus parceiros e amigos. Fui tão bem recebido nessa terra que me senti, de fato, um parceiro. E fique tranquilo, Téo. Você tem muita fama, mas para sempre vou lhe reconhecer como amansador de burro brabo.

A história do norte de Minas é a história do Brasil.

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Showing 2 comments
  • Edu Cezimbra
    Responder

    Conheci Téo Azevedo em um encontro de culturas populares em Brasília.. Grande artista e ser humano, cheio de sabedoria que vem de uma extremada humildade. Baita encontro!

    • Rodrigo Carancho
      Responder

      O Téo é um baú de histórias. Já tocou com Noel Guarany e Cenair Maicá.

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