Não passa muito tempo em uma conversa sem que esse homem faça referência a determinada poesia ou poeta. Eu falo de Olliver Brasil, com quem passei dois dias ganhando uma aula de nordeste. Músico, poeta, cordelista e um sonhador.DSC_00051

Não sei se foi pelo seu passado como vaqueiro no sertão da Bahia, mas é muito fácil encontrar uma força de vida em Olliver, que narra as voltas que já deu em nome de sua arte. Seja viajando com o pai, o saudoso repentista Sabiá Laranjeiras, ou nas investidas para publicar suas primeiras obras.

O poeta me recebeu na sua casa em um sábado de uma tarde quente. Quando dei por mim, já estava imerso em um papo sobre poesia, cuidado, sertão, seca, música e outras coisas que pudessem cruzar nosso caminho. Aliás, a poesia nordestina é uma odisséia dos afetos que cruzam essa ponta do Brasil. As histórias de vaqueiros e vaquejadas, o gibão, a seca, a saudade, o amor, a relação com Deus. Tudo isso se mistura na poesia nordestina e tudo isso se mistura em Olliver. Durante nossa conversa, de tempos em tempos, ele pegava a viola e relembrava um poema ou uma música de algum canto da memória.

Olliver, manisfesta em sua arte um refinado cuidado com o seu nordeste e com o afeto poético que recebeu do seu pai. Inclusive, o poeta adquiriu uma área em Feira de Santana para realizar um antigo sonho de Sabiá. O de construir uma casa de apoio para artistas que visitassem a região. Objetivo é tornar o local um pólo de cultura que apoie os viajantes da arte nordestina.  Tive a chance de visitar o local, que fica em um região carente da cidade:

DSC_00091“A gente quer fazer a cultura circular aqui. Enriquecer o a região com cultura”. Ele me diz depois de contar sobre o esforço para comprar a área.

Quando pergunto para Olliver o que é cuidado ele me responde:

“Para mim, cuidado é missão e não escolha. O próprio cordel é uma forma de cuidado. Nos tempo que informação era raquítica, era o cordel que cuidava de informar as pessoas. Muita gente aprendeu a ler pelo cordel. As pessoas conheciam o mundo pela poesia.”

Tirando o ofício, não vejo diferença entre um benzedor, um poeta, um cantador, um pajé ou uma parteira. Neste caminho que venho matutando, percebo que são todos cuidadores. O poeta Olliver Brasil é mais um deles. Pensei nisso enquanto jantávamos um cuscuz com ovo frito e junto com isso, imaginei algum Deus, ali jantando conosco. Comendo cuscuz com um belo ovo estalado por cima. Mas essa conversa de Deus nordestino é poema, por isso, eu deixo para este poeta falar:

“Deus cuma bom nordestino
Soltaria um aboio
Desses que toca na alma
E vaza água do ôio.
Posso contemplar a cena
De Deus Vaqueiro aboiano
Um verso que vale a pena
E nóis tudim escutano.. “

Olliver segue sua vida e eu sigo viajando. O dia caminha com as bençãos de um Deus nordestino enquanto vejo o céu com mil peixeiras de luz.

Cuidar cura

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Comments
  • leandrobraga
    Responder

    ótima passagem!

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