No sertão paraibano, ao pé de uma frondosa e íngreme serra, repousa o município de São José de Piranhas. Cidade pequena, onde vou chegando pouco a pouco no embalo da Kombi. A tradicional praça com a igreja e a concentração comercial do centro dão seus ares logo na chegada. É um dia quente, na véspera do fim de semana, Pergunto a um ou outro onde fica a casa de seu Ivinho e logo chego ao lugar procurava.

– Ivinho é apelido de infância. O nome mesmo é Francisco Alves de Araújo.

Seu Ivinho Foto: Rodrigo Carancho

Ele mesmo me disse isso, quando me recebeu junto com Dona Neli, sua esposa. Os dois debulhavam o feijão colhido no sítio enquanto conversávamos. Eu tomava um cafézinho e era embalado pelas histórias da terra e por aquele som airoso do debulhar das vagens de feijão.

– Depois que me aposentei foi que comecei a plantar. A velhice é difícil, mas a gente não pode parar. Isso virou minha vida. Se a gente tem um pedaço de terra, passa trabalho, mas não passa fome.

Seu Ivinho mora na cidade, mas sua paixão mesmo fica a 17km dali, serra acima. Um bonito sítio onde planta e colhe feijão, abóbora, manga, melão, tomate, seriguela, pitanga, cajá, graviola e uma porção de plantas medicinais. Além disso, pelos cantos da terra, seu Ivinho possui uma série de objetos antigos que contam a história daquele lugar. Como uma tradicional balança de madeira com mais de cem anos.

É nessa ponta de terra, a 700m acima do nível do mar que seu Ivinho se sente inteiro. Claramente seu humor mudou quando adentramos as plantações e atravessamos as sombras das árvores. Alegre, ele me contou uma porção de histórias e explicou nos mínimos detalhes o processo de cuidado com a terra e com as plantas.

Seu Ivinho e Dona Neli Foto: Rodrigo Carancho

– Eu planto só para família, mas sempre consigo dar um pouco para vizinhança ou trocar com alguém. Tenho feijão aqui para o ano inteiro.

Já na volta, fiquei hospedado em sua casa onde continuamos nossa conversa sobre comida, colheitas e costumes. Nosso papo desembarcou no chimarrão que fiz e compartilhei com gosto com esse cuidador da terra.

Andarengo é o garimpo de histórias de gente que cuida. Andarengo é ouvir. Ouvir com olhos, mãos e ouvidos. Este país-continente chamado Brasil, que hoje parece extenuado e desacreditado é um celeiro do cuidado. Em uma onda pública de ódio, corrupção e egoísmo, enxergamos em um agricultor do interior da Paraíba a vida se manifestando. O cuidado conservando um modo de produção. Produção de vida e sentido para a mesma.

Cuidar cura

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