Meses atrás eu andava pela mítica transamazônica, quando encostei a Kombi em lugar isolado para preparar meu almoço. Um dia quente e úmido, típico da região, dava o tom das andanças. Enquanto me deliciava em um arroz com linguiça, as criaturas da floresta cantavam distantes melodias que escoltavam meu apetite. Eu estava alegre, solitário e de bem comigo. A vida era ali, na riqueza de certa confluencia entre sons e sabores. Pois foi assim, na estrada, que avistei, atolado no barro entre arbustos, um pedaço de madeira. Parecia algo antigo e cheio de histórias. Uma daquelas coisas que dão sinais de saber mais da vida do a gente mesmo. Uma madeira dura e pesada. De lei.

Não deu outra: trouxe a bendita comigo.

Assim, passado esse tempo da viagem grande e refletindo sobre a Cultura do Cuidado, esculpi lentamente uma colher. A mão livre, com formões antigos, eu retirei uma colher de dentro daquele velho e batido pedaço de madeira. “Uma lembrança da viagem” falei em voz alta, como se fosse possível esquecer esta jornada pelo Brasil.

Uma colher, um objeto simples e ordinário, transformado em um símbolo de cuidado, esmero e presença. Algo que pode alimentar um corpo, sem deixar de nutrir um espírito. Um pedaço de madeira, carregado de simplicidade, mas com uma presença que lembrava um espaço entre Apolo e Oxóssi.

A colher é a gente que vi e ouvi cuidando: Faziam partos, benziam, escreviam poemas, ouviam as dores alheias e, sem arrogância e nem medo, deixavam seu olhos dizer “vai passar”. Ou ainda, gente que cuida pelo fazer. Como o João de Bichinho, homem simples lá das Gerais, que tranforma pedaços de madeira em formosas violas caipiras. Elas cantam bonito.

A cultura do cuidado é o elixir contra a cultura do medo. Escolhe-se o que cultivar. A colher é um símbolo de algo ancestral, ligado a Terra e a aventura humana na tentativa da conservação de sua espécie. A madeira é forte e certamente essa colher vai durar até o fim da minha vida. Diferente de Andarengo, algo que levarei para além túmulo, em algum lugar onde estarei viajando e cuidando de algo.

 

 

 

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