Durante cinco meses o meu destino foi o corredor das estradas do Brasil. Até aqui, rodei 16000km e topei com inúmeras histórias de gente apurada nas vivências. Na semana passada, andando pela minha querência, esbarrei fronte ao rancho de um poeta que há tempos admiro. Eron Vaz Mattos é, como ele mesmo assinala em um de seus poemas, um “crina grossa, crioulo dos olhos d’água”. Aliás, Olhos d´água é a localidade donde esse homem veio ao mundo. Ali, nos torrões de Bagé, na divisa com os gauchos uruguaios, nasceu este poeta e cuidador de uma cultura muito singular.

Era manhã fria em Bagé. O vento minuano não dava trégua. Enquanto arrumava a Kombi, no posto de gasolina em que passei a noite, fiquei pensando que pouco tempo atrás eu andava pelo sertão nordestino em terra de sol inclemente. Agora é Bagé, é pampa, é Rio Grande. Nesta mesma noite os 7º se mostraram no termômetro. Mas nenhum frio resistiu ao fogo aceso na casa do Eron. Lugar onde o poeta me recebeu para deixar as lembranças acontecerem. Eu vi ali, sentado em minha frente, um cuidador. Eron, entre um cigarro e mais lenha para o fogo, alimentava minha experiência de ouvir.

Interessado pelo projeto me indagou sobre o homem nordeste e completou:

– O nordestino, esse que vive no sertão, é muito parecido com o gaúcho do campo. Um homem de a cavalo, resistente e que se adaptou ao meio.

Eron me mostrou um vasto vocabulário para lidar com suas inúmeras histórias. Fazia um ponteio no tempo, mas o zelo sempre estava ali, estampado na sua voz grave.

Entre tantas coisas, falou-me dos antigos e da dedicação que tinham para fazer algo.

– Em outros tempos se tinha um cuidado e um esmero com o fazer. Naturalmente, o homem é fruto do meio. Antigamente não se tinha a preocupação com o tempo e é claro que se tem mais cuidado quando não se tem pressa. Um exemplo disso são os mangueirões, as cercas de pedra, que estão até hoje aqui pelos campos de Bagé. Aquilo se demorava para fazer, mas as que não foram destruídas pela mão do Homem estão aí até hoje. Outra coisa é a madeira que antigamente era extraída na lua minguante em meses que não tinham “R”, aquilo conservava a resistência da madeira contra o cupim, por exemplo.

Aos poucos fui identificando na fala deste homem da fronteira o que muito encontrei Brasil a fora. Aquele manancial de sabedoria aliado a uma simplicidade, uma franqueza e honestidade com o mundo. Eron é mais um exemplo disso, aliás, ele mesmo falou dessa gente simples, de campo, e que detém uma espécie de conhecimento pela vivência e pelo observação do meio.

– Eu penso que essas pessoas possuem uma espécie de ciência campeira. É uma coisa impressionante o que o Homem do campo domina, ou dominava, sobre as chuvas, as secas, o inverno….todo o seu meio. Um povo que foi obrigado a aprender, pela observação, o que era preciso para sobreviver.

Eron é muy cuidadoso com a história do povo que habita esses campos que se alongam para o Uruguai e a Argentina. Na conversa sobre sua obra ele fala que dos seus livros, o que ele mais dá importância é a obra “Aqui: Memorial em Olhos D’Água – Ensaio Etnográfico”. Um verdadeiro dossiê sobre o homem pampeiro.

– Foi o meu segundo livro, um trabalho etnográfico sobre a minha região, onde procurei relatar em detalhes o modus vivendi dessa gente. Em todos os seu trabalhos, características, os rituais, crenças…Eu resolvi escrever esse livro por que comecei a perceber uma rápida e radical transformação do estava acontecendo. Eu me senti na obrigação de registrar isso para que não desaparecesse de maneira total. Porque lastimavelmente é o que estamos vendo. A própria geografia, em sua maneira nativa está deixando de existir. O pampa quase não existe mais no Rio Grande do Sul. Existe, sim, a topografia, mas as pastagens estão dando lugar a soja, o eucalipto, a acácia, o arroz….

Eron expressa protesto contra o que ele chama de “Inovação e não evolução”. Deixando claro que existe algo morrendo, seja na geografia, na cultura ou na memória.

– A amazônia é lugar de floresta. E estamos vendo a derrubada da floresta para colocar gado. O pampa é lugar de pastagem. Pois estão acabando com a pastagem para plantar uma floresta. Isso é inovação, mas não evolução.

Pois foi assim, entre as palavras e o atávico som da lenha estalando no fogo, que tive o privilégio de estar na companhia dessa pessoa carregada de sensibilidade. Tanto é que quando falávamos sobre música, Eron deixou clara a importância das obras (logo lembrei das milongas) que nos fazem crescer. Músicas que nos colocam no encontro com a existência:

– Aquela música que nos faz crescer, refletir. Às vezes é um pequeno trecho, uma metáfora de um verso que já mexe com a gente. Nos coloca a pensar e nesse momento nós estamos crescendo.

Por fim, aquecido pelo fogo e pelas contações, eu pergunto ao poeta se tem algum dos seu poemas que lhe acompanha sempre. Algo como um preferido. Não demora e Eron me diz “Perfil de estrada e tempo”. Um poema que escreveu para seu pai e foi musicado por Luiz Marenco, conhecido músico gaúcho.

Pois é algo assim. Algo como uma continuação, de pai para filho. Andarengo é a memória de um povo, impressa na escuta de um viajante. Eu escutei o seu Eron e, como tivesse escutado uma milonga, eu cresci  e segui em frente: transformado.

“Por isso tenho milongas entranhadas no meu ser
E poucos hão de entender que meu verso pêlo duro
Abre rasto prá o futuro, sesteia em sombras de molhos
E guarda luas nos olhos para enxergar no escuro” (Eron Vaz Mattos)

Cuidar cura

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