É um fim de tarde avermelhado quando chego na margem do Rio Subaúma, ali onde ele encontra o mar sob o sol da Bahia. A barra, sempre nervosa, escancara a maré que sobe e desce sem nunca parar. Quero atravessá-lo, mas percebo que ele é profundo e estou com mochila e equipamento fotográfico. Além disso, a maré subiu naquele exato momento e o mar invadia o rio por uns bons metros. Resolvo esperar um pouco. Deixo a mochila na margem e entro no rio para tentar encontrar uma solução e chegar do outro lado com meus equipamentos a salvo. Nesse momento, percebo que dois pescadores locais se aproximam, passam por mim, saúdam e atravessam os 30 metros de uma margem a outra com água pelo peito. Pronto! Eles eram mais baixos que eu, o que significava que a minha travessia estava garantida. Não perdi tempo. Marquei o ponto exato que eles entraram na água. Peguei a mochila e iniciei a travessia seguindo os rastros dos locais. Dei alguns passos, mas quando percebi perdi o chão. A correnteza me arrastou e eu fiquei desnorteado, com a mochila nos braços erguidos, enquanto me mantinha nadando só com as pernas. Passei algum trabalho, mas não tive nenhum dano no equipamento. A minha “esperteza” em prestar atenção no lugar exato que os pescadores entraram no rio não foi suficiente para alçar a outra margem. Fiquei pelo caminho.

Depois de passada toda cena, já sentado na areia quente, eu via longe os dois homens caminhando sobre as dunas sem pensar ou calcular nada. Apenas seguindo sua vida.

Esse episódio chamou muito minha atenção.

Existe um saber diluído na vida desses locais. Uma sabedoria orgânica. Algo que não é pensado, mas simplesmente existe. O conhecimento dos pescadores vai se instalando em seus corpos na medida que vão crescendo, observando e ouvindo os mais experientes. Crescem fazendo. Aprendem por uma pedagogia da vivência. Vivenciam em comunidade. Com isso, eu lembro do Paco de Lucia, gênio da guitarra flamenca:

“Aprendes na tua família, dos teus amigos, em festa. Depois só deves trabalhar a técnica. Os violonistas não precisam estudar. E como em qualquer outro tipo de música, os melhores devemos aprender com os novos talentos. Deve-se entender que a vida é uma anarquia. E é por essa razão que o flamenco hoje em dia é o que é, sem disciplina alguma, como o conhecemos. Não tentamos organizar as coisas em nossa mente, não vamos ao colégio para educarmos. Apenas vivemos…A música está em todas partes ao nosso redor”

Talvez, eu possa aprender o ponto exato da travessia. Talvez, eu possa conhecer a fundo a biologia do rio-mar. Talvez, eu possa até construir uma ponte. Mas existe um saber que eu nunca vou alcançar. Um saber local, ainda intacto e que guia a vida desses pescadores, mas que nunca guiará a minha.

No entanto, o caminho que vai se escrevendo na história mostra a hegemonia do conhecimento científico-eurocêntrico em detrimento do saber popular-local-vivencial. A colonização do saber, dos modos de vida, dos corpos e do trabalho é uma missão que nasceu há mais de 500 anos. Um saber que parte de conceitos de normalização e estabelece mapas que padronizam modos de viver, empobrecendo e desqualificando o saber orgânico que cresce com a vida. Essa colonização do saber é algo tão bem engendrado que a pessoa vai expulsando de si mesmo esse saber “menor” e, sentindo-se errado, parte para o outro lado da história. Afinal de contas, ninguém quer ficar sozinho.

Fiquei ali sentado pensando sobre isso. O quanto do conhecimento de mundo que perdemos por achar que o de fora é melhor, para tudo, para todos. Parte da história e valor de um povo morre quando essa enxurrada conceitual invade as subjetividades de um coletivo. Isso empobrece a vida.

Qual o caminho que permitirá que essas duas formas de conhecer o mundo existam e se relacionem ?

Recommended Posts
Showing 2 comments

Leave a Comment