Cheguei em Cananéia via balsa, optando, como tenho feito no decorrer da viagem, pelos caminhos menos tradicionais. Eu adentrava a pequena cidade no litoral sul de São Paulo em busca de histórias da cultura caiçara – povoado que habita a faixa do litoral norte do Paraná até a região de Paraty no estado do Rio de Janeiro. Um estilo de vida – como tantos outros que encontrei pelo Brasil – ameaçado pelo especulação imobiliária.

Seguimos:

Ainda na entrada da cidade fui indicado a procurar a Secretaria de Cultura do Município, que talvez pudesse me dar orientações sobre as pessoas que eu poderia encontrar. No entanto, mais uma vez o desconhecido me seduziu e decidi não seguir os trâmites institucionais. Enveredei pela cidade parando aqui e ali, bebendo uma cachaça no bar, conversando com os pescadores que retornam do mar ou fumando um palheiro no banco da praça. É assim que chego em um lugar novo, me permitindo uma abertura para o cotidiano dos moradores e sempre observando, atento aos sinais do caminho. Pois foi nesse ritmo que eu parei para conversar com o Seu Zé Carlos, um homem que consertava uma rede de pesca na beira do mar. Foi ele que me apontou a direção de onde eu poderia encontrar as histórias caiçaras.

Assim, desse jeito que cheguei na casa de seu Joaquim Pires, homem conhecedor dos caminhos dessa rica cultura e cheio de histórias para contar. Antes de tudo, fui recebido por Valéria, sua filha. Ela acabara de me conhecer e já foi me convidando para entrar, um gesto de acolhida e confiança que é a marca de um Brasil interiorano que tenho visto.

Seu Joaquim é um homem cheio de vida. Com presença forte e voz grave, iniciou sua conversa comigo de maneira muito orgulhosa, mas me alertando.

– Meu linguajar é caiçara. É o jeito mesmo da gente falar por aqui – mal ele sabia que isso era tudo o que eu buscava. Aliás, isto é tudo o que busco na minha vida. A diferença, a singularidade. O jeito próprio. As pedrinhas miúdas, os detalhes. Aquilo que nos diferencia no mundo, que nos dá lugar e chance de expressar a vida. E foi isso, justamente, que encontrei nessa conversa

Atento feito um pássaro, ouvi aquelas histórias com gosto. Seu Joaquim me conta que quando morava na Ilha do Cardoso, lugar que se transformou em uma reserva ambiental, formava grande mutirões com os vizinhos. Era mutirão para fazer uma roça, para construir uma casa, para colher algo. Um grande clima de comunidade envolvia o local. O dono da casa onde estava sendo feito o mutirão oferecia comida e os vizinhos entravam com o trabalho.

– Todo mundo se ajudava. Era um tempo alegre e de muita fartura. A gente trabalhava muito, mas era bom. Não faltava nada e todo mundo se ajudava. Tinha de tudo. Se plantava, caçava e pescava. Mas respeitava o tempo da caça quando era tempo de procriar. Ninguém ficava sozinho. Todo mundo disposto e ninguém sentia canseira.

No fim de cada mutirão, o povoado se reunia para um festejo que é a grande marca da cultura Caiçara: O fandango. Um estilo musical expressado em diferentes ritmos ao som de viola, rabeca, machete, caixinha de folia e o pandeiro ou adufo. Seu Joaquim exibe com orgulho a viola caiçara. Uma lindeza de instrumento, feito de maneira rústica e com uma sonoridade que remete a outros tempos.

– Eu aprendi a tocar a viola com meu avô, pai da minha mãe. Isso é muito antigo! Quando eu toco o fandango eu me sinto como louvando a Deus – Ele afirma assim, de modo definitivo, todo o amor que sustenta por esse modo de vida.

Mas a cultura caiçara vai além do Fandango. É claramente um modo de vida, um jeito de mirar o mundo que passa, é claro, pela música. Mas existe algo desse povo que me interesso há muito tempo: A canoa. Seu Joaquim é um mestre canoeiro, que tem as manhas da madeira. A canoa caiçara é uma embarcação tradicional usada há muitos anos por esse povo para o seu sustento no mar. Uma canoa esculpida inteiramente de um único tronco de árvore. Um trabalho estritamente artesanal, baseado em um saber ancestral transmitido pela oralidade.

– A canoa é muito segura no mar não estraga. Dura uma vida inteira.

Percebe-se que, apesar de algo que remonta a outros tempos, a tecnologia de uma canoa caiçara é algo que atende um requisito básico de uma embarcação que é a segurança e como se isso fosse pouco existe a durabilidade e a baixíssima manutenção. Mire, a Canoa é feita de uma única peça. No entanto, esta arte está ameaçada pela dificuldade do acesso a matéria prima e pelo desinteresse das gerações mais novas. Mas algo resiste, nem que seja a memória.

Essa conversa durou algum tempo.  Saí da casa de Seu Joaquim com a sensação de que poderia ficar muito por ali. Ouvindo e aprendendo.

Esse encontro me remete ao cerne do Projeto Andarengo: A cultura do cuidado. Veja que o cuidado no fazer está presente e vivo nos caiçaras. A canoa, o fandango, a relação com a natureza, a cooperação e a solidariedade. Isso são traços de cuidado. São formas de sustentar a vida e manifestar a potência de criação que a espécie humana carrega. Conhecer o Seu Joaquim foi um privilégio. Ver os olhos de um homem de 77 anos brilharem ao contar suas histórias é como se a vida me abraçasse.

Na despedida, já com minha mochila nas costas, seu Joaquim me fala:

– Dá até um alívio. Poder contar a história e ver que alguém se interessa por isso. Parece que tira algo de dentro da gente.

Assim eu fui embora. Cheio de gratidão à vida por me deixar aprender a ouvir e ver isso tudo.

Cuidar cura

Recommended Posts

Leave a Comment