Porto Alegre, claro, me leva a caminhar por entre os trigais da minha infância. Aquelas bandas de um céu claro que acolhera frio e luz nas suas esquinas antigas. Cidade-confluência de inúmeros rios que nascem em diferentes lugares do estado. Ponto do sul do mundo que é porto para barcos e gente. Porto Alegre é alegre nas minhas lembranças.

Pois dessa vez não foi diferente.

Naquela tarde outonal, coloquei a kombi para rodar por ruas e avenidas já conhecidas. Saí de Canoas para cruzar toda a capital gaúcha em direção a um cantinho tranquilo do Belém Novo, bairro da zona sul da cidade. Rodei uns 50km antes de chegar pela beira do Guaíba. Lá, adentrando um morro, em um recanto da mata atlântica, está o refúgio do Eduardo Cezimbra, ambientalista, ativista, escritor, facilitador de grupos, dentista-homeopata e uma porção de nomes que nunca chegam a definir uma pessoa. O homem é do Alegrete, cidade gaúcha que flerta com a Argentina nos campos da fronteira. Mas para o Eduardo adolescente, aquele ainda não era o lugar. A vontade de estudar e descobrir outras coisas do mundo lhe colocaram na estrada. Primeiro Santa Maria, depois Pelotas. Isso tudo ele me contava enquanto sorvíamos um mate na sala da sua morada. Lugar aconchegante, onde se adentra calçando alpargatas e senta-se na companhia de um antigo rádio a válvula. No meio dessa charla sobre a sua trajetória, obviamente entramos no assunto cuidado. Eduardo é um cuidador:

– Eu reconheço o cuidado como um dos fundamentos da nossa espécie. Chegamos até aqui muito por causa do cuidado. Isso ajudou a garantir nossa sobrevivência. Esse cuidado que tem relação com a alteridade, com a solidariedade e que é um ponto importante que vem enfraquecendo na humanidade. Aliás, é também por isso que nós corremos o risco, apesar de todo o avanço tecnológico, de involuirmos ou até entrarmos em extinção como espécie. Por isso, os profissionais de saúde precisam rever com profundidade todas as suas práticas. Existe uma tendência a perpetuar os mitos funcionais. É muito difícil rever algo. Precisa de muita coragem para se desfazer de crenças e de condutas. Toda essa tecnologia sem o cuidado, a escuta, a solidariedade não nos leva a lugar nenhum.

Eduardo, defende uma postura de cuidado frente a vida a partir de um diálogo com o sabedoria popular. A história de um povo contada na sua forma de conservar e cuidar da vida: a fala de Cezimbra traz isso a tona em vários momentos, inclusive na sua crítica ao excesso de tecnologia no cuidar e a hegemonia biomédica sobre o cuidado.

– O que eu aprendi e que é valioso nessa questão do cuidado é justamente a perspectiva antropológica. Isso aconteceu depois que comecei a entrar em contato com as culturas populares. E foi a Saúde Comunitária que me atiçou a curiosidade para isso. Quando eu atendia nas vilas, em Alvorada, eu comecei a perceber que aquelas pessoas tinham uma capacidade de se cuidar a partir de um cultura popular e local….E como que tu vai desprezar o saber dessas pessoas que conhecem formas de cura diferentes do que tu, enquanto profissional de saúde, detém?

E ele ainda vai mais longe:

– O que me surpreende é ler um livro como Cemitério dos Vivos, onde o Lima Barreto fala da experiência no hospital de alienados na Praia Vemelha. O que ele lá fala está na frente de muitos dos nossos teóricos de hoje. Muitos dos nossos profissionais de saúde não alcançam ou não aceitam o que ele fala nesse livro. Toda essa visão de mundo e de ciência, de pretensão de cura. Esse triunfalismo médico, que é um desastre para a saúde, predomina até hoje.

Naquela tarde, me coloquei a ouvir. Ouvir não é moda no mundo contemporâneo e não há tecnologia que substitua esse ato humano. Essa ronda chamada Andarengo me convoca, em todos os momentos, a ouvir. O encontro com Eduardo seguiu essa mesma partitura. Eu escutei uma pessoa que falava de escuta. Não o escutar nas pressas da religião do crescimento, nem dos compromissos imaginários do telefone celular. O escutar, ato nobre, presente e que confirma o ser humano como um ser relacional.

O cuidador do vale do Jequitinhonha, que fabrica suas violas dando o tempo certo para a madeira. A cuidadora do sertão da paraíba, que cuida das mulheres a parir novas vidas. Ou ainda o mestre canoeiro das caiçaras águas do litoral de São Paulo. Todos trazem a escuta presente. Escuta essa que é feita com ouvidos-olhos-mãos. Cuidar é – antes de tudo – escutar.

Com o Eduardo não foi diferente. Obviamente que, como entrevistado, foi ele quem mais falou. Mas ali, nos silêncios, entre uma ou outra pergunta via-se um homem de escuta demorada, sensível e despreocupada. O ser humano cuida e cuidar também cura.

Claro que ele falou muito mais do que eu coloquei por aqui, mas isso é assunto que vou guardar para nosso filme.

Depois disso, eu voltei para minha Canoas com os vidros abertos, deixando o vento frio entrar. Ouvindo o ventar e cuidando um pouco da história que ficou em mim e me fez crescer naquela tarde.

Recommended Posts

Leave a Comment